segunda-feira, outubro 03, 2016

Não me iludo

Tudo permanecerá do jeito/ que tem sido...

A música de Gilberto Gil muda como muda a vida. Ouça: ... transcorrendo, / transformando / tempo espaço navegando todos os sentidos..."

Essa transformação nos levará de volta ao Pai. Mas como abraçá-la e transformá-la também na pura vida? Como aceitar o que não se pode mudar, ao passo que não tem por onde? O limite, é o limite. Cada um tem o seu.

Nossa alma avoa, enquanto a cabeça perece. Ela se solta rápido de vícios e virtudes, enquanto a cabeça vive cheia de hábitos. Velhos hábitos enfileirados na prateleira que diz "Coisas que tenho que fazer" pesam como chumbo preto no peito do pequeno sonhador. Quanto tempo tenho que sonhar um sonho que se sonha só?



Um sonho que se sonha junto é realidade, mas sonho que se sonha só... Raul então corta a sala de visitas e com a sutileza de seu indecifrável sorriso nos apresenta um dilema. Será que era uma borboleta sonhando que era um sábio chinês, ou um sábio chinês sonhando que era uma borboleta?

Onde se esconde o fio da vida? Aquele prateado que nos liga da terra ao infinito azul turquesa do céu no qual infalivelmente vamos mergulhar... falidos? O sonhador nunca tem as respostas. Ele tem as perguntas. Ele quer fazer um desenho no ar e ver multiplicar o colorido do som. Ele quer se conectar de um jeito sem eletricidade. Um jeito só dele de ver que o mundo é seu. Todo o mundo é seu.

O sonhador sempre vence, por que no final ele ainda vai estar sonhando.. talvez saboreando, talvez se desiludindo, mas sempre sonhando com o novo, e de novo, e voltando a sonhar e sem querer vai transformar tudo a sua volta.

A vida sempre começa num - pensamento / mesmo fundamento singular, do ser humano... De inspirações que regalam corações capazes de expandir até o infinito um.. pensamento. Mas - Poderá não mais fundar / gregos nem baianos... com sua licença Gil, obrigado Gil.


segunda-feira, março 07, 2016

Namaste Amém


Passo agora os tempos de reflexão suprimindo anseios terrenos. Uma atmosfera astral tomou conta da minha vida desde que me dediquei à arte da Yoga. São ares novos que respiro profundamente na minha vida e olhando de relance, vejo que preciso retratar-me também sob esse novo prisma.

Vou fazê-lo a conta-gotas para que percebam a intensidade desse deleite.

Autoconhecimento.

Parece tão profundo e distante, mas está ao alcance das mãos. Levantar, sentar, dobrar e desdobrar. Respirar. Respire e perceba. Respire profundamente e sinta. O ar é o alimento mais essencial e abundante da vida. (E eu anos mandando fumaça pra dentro). Delicioso ar.

Se conhecer requer concentração, mas para não ser tão chato, basta prestar atenção. Você sabe como é seu corpo, ok? Sim. Parta deste principio e descobrirá tesouros. Qual é seu limite de tempo para ficar agachado? Com o corpo torcido, quanto cabe de ar nos teus pulmões? Comece por ai. Medite.

Gaste um tempo do seu precioso tempo olhando para si mesmo de olhos fechados. Veja as imperfeições do seu rosto (o meu tem). Escute (por dentro) o seu coração, e vislumbre a Yoga. Mergulhe em si mesmo desafiando os desejos, vontades irrefreáveis, ambições fúteis e desfrute desse autoconhecimento. Valorize a vida.

Paz.

Logo que comecei, estranhei. Nada disso eu percebia, queria arrumar apenas equilíbrio pra surfar, mas a conexão logo cresceu e sem querer meu despertar espiritual também aconteceu.

Fui fazer uma promessa para conseguir uma promoção no emprego, entrei na igreja e fui imediatamente arrebatado por uma emoção incontida. Chorei antes de começar a missa. Chorei copiosamente sem conseguir nem ao menos saber por quê. Deixei-me levar. ‘O padre fala bonito’ consegui pensar afinal. Desde então, bato cartão. Domingo é dia de missa.

Voltando a meditação e a oração que na verdade caminham opostamente juntas, elas buscam o mesmo objetivo. Quando medito, invariavelmente tenho dificuldade de retirar pensamentos escusos da cabeça. Vejo-os como obstáculos que me impedem de chegar ao cerne da questão. A paz. A minha paz. A renúncia de todos eles em nome da paz.

De mãos dadas na igreja (O Padre Cláudio é um santo homem) sorrimos sempre ao dizer “O amor de Cristo nos uniu”. Essa paz vem de fora, a outra de dentro. A paz não tem preço, seja ela qual for tem que extrapolar as fronteiras do seu corpo.

De olhos abertos oferecemos então nosso Deus interior em homenagem de paz ao Deus interior de seu interlocutor unindo as mãos em frente ao peito e nos saudando: Namaste ou Amém.

quinta-feira, janeiro 14, 2016

Contrastes...

Dormir e acordar, despertar para um mundo só seu em pensamentos suaves e distantes. Eu não estava ali. Só sentia um ambiente estranho, como se não conhecesse minha própria cama. Como se tudo ao redor fora modificado para sempre, mas dentro de mim não fora.

Foi assim: ontem o calor me sufocava e o lençol não dava conta do suor. Minha alma estava leve e poderia ser levada por uma brisa. Eu abri os olhos e já era dia. Me levantei, mesmo cedo demais, e abri todas as portas e janelas. O cheiro é instantâneo. A relva resplandecente me abraçava como a um irmão. Um sorriso brotou antes dos dois olhos se abrirem.


Ao longe o rio corria tão mansamente que podemos dizer que ele andava, sereno e calmo. Mas ao seu redor uma turba eufórica se atacava feito um carnaval a busca de alimentos. Os pássaros gorgolejavam em tons, intensidades, e timbres diferentes. Altos, concisos, disputando cada ouvido que se atinasse para a sinfonia. Eu estava realmente lá. Em tudo, a maresia, o cheiro de mar era onipresente.



Hoje custei a acreditar. Frio de janeiro, meio molhado, meio sem vento, mas aquele frio pessoal, que se sente em negação, sabe? Frio. A chuva inaudível se fazia presente nos pneus incessantes que cruzam a avenida em frente. Sequer o cheiro dela era perceptível, apenas sua incômoda e úmida presença.

Nem o meu Franjinha está aqui para cantar e me confundir, meu canário passou nossas férias na casa dos amigos com meu sogro, saudades dele também. Prevalece o som das televisões, uma para cada pessoa, cada qual no seu infinito particular e eu tenho certeza que não sou daqui. Sou dessas pessoas, mas não sou daqui.

Estou aqui, mas trouxe de lá toda minha essência, um caldinho que, se você tomar, vai estar me experimentando, Concentrado, leve e saboroso. Eu preciso apagar os contrastes da minha vida para sobreviver. Viver das minhas paixões, me apaixonar por alguém, por uma onda, um lugar. Isso tudo sem precisar fugir, apenas voltar.

domingo, novembro 01, 2015

Emoção

Entre bruxas e mortos fico suspenso na bruma dos pensamentos que não se concretizam, não tomam forma. Aquele sentimento que ameaça sair vem até a garganta e trava, mas extravasa pelos poros, talvez faltem palavras, mas nunca sentimentos.

Sentimentos nos traem. Nos revelam quando a gente não quer. Vira na cara uma expressão de indiferença, ou um sorriso malicioso de desejo, um despejo inconveniente de descoberta. Nessa hora imprópria pode também ser o contrário. Quando queremos demonstrá-lo, ele não sai. Fica barrado pelo orgulho, na mesma trava de garganta da marrudice, nos traindo de novo, tornando tudo insípido no limbo dos sentimentos.

Mas sentimentos não são pensamentos. não posso escrevê-los, apenas tentar fazer com que se sinta o que eu sinto, mas é possível isso? Me parece um absurdo entrega-lo assim tão facilmente, ou tentar que eu transporte um pulsar para outro pulsar. O teu pulsar.

Sentimento têm maturidade. Ela endurece o coração ao longo do tempo. Ao mesmo tempo fortalece antigos amores, decepções tomam forma de portos seguros e aventuras são muito altas para serem consideradas.

E no meio de tudo isso vem uma onda cheirosa e cor de rosa chamada paixão. Paixão acontece, isso é fato. E pode ser uma ondinha, ou um tsunami, não depende de nós. Os sentimentos ficam sem freio. Se espalham para todos os lados feito cachoeira na cheia do rio. Não tem maturidade que o impeça, não tem ingenuidade que o impeça, e não adianta pensar. Pensar, só vai fazer aumentar.

Engraçado como tratamos as paixões. Fazemos coisas absurdas em nome dela, não escutamos, não enxergamos e não falamos coisas contra. Precisamos de um murro na cara pra acordar, mesmo sem querer, precisamos acordar. Uma decepção. Uma grande decepção.

Juntando os cacos vamos levantando lentamente entre mortos e bruxas. Transformamos a saudade numa bruma espessa sem sentimentos. Colocamos as mãos nos bolsos sabendo-os vazios. Fazemos de rei os pensamentos que sabem brigar com os sentimentos. Vencemos e somos vencidos.

São temperos que mantém vivos em nós a capacidade de se emocionar. Não importa quanto tempo passou. Sem emoção não existe paixão. Sem emoção não existe sentimento. Sem emoção não existem as lutas com suas derrotas e vitórias. A emoção transforma tudo a nossa volta.

sexta-feira, maio 01, 2015

Faith no more

O que dissolve a fé, endurece a alma. A ingenuidade é colorida, saborosa, mas também pode ser cruel e dolorosa. Eu perdi minha fé. Ela foi escoando pela minha alma sem que eu percebesse que estava acontecendo, e antes de recuperá-la, eu tive que viver na resignação do preconceito e do silêncio.

Tudo começou aqui na Internet, mais especificamente no Facebook. As turbulentas eleições de 2014 trouxeram uma novidade ácida, mas necessária. A turba acordou o gigante que não quer mais dormir. Mas a intolerância, o preconceito e o egoísmo imperaram neste meio indefectível de democracia.

Vi amigos dizendo absurdos abomináveis, desfiz amizades, retruquei uma única vez e me rebaixei. Me arrependi porque neste rebaixamento me tornei igual. O silêncio dos inocentes vai se tornando poderoso, mas nunca é a vitória certa.

Nesse momento eu perdi minha fé. Acho extraordinário a pessoa defender seu ponto de vista, sua ideologia, mas daí a classificar de "nordestinos ignorantes" as pessoas que pensam diferente é muito para minha alma altruísta. Pintar o país com as cores azul e vermelha e dividi-lo ao meio é fruto de uma imprensa tendenciosa que fica "isqueirando" a população que inevitavelmente torna o adversário inimigo. Me tornei inimigo. Mandei as pessoas que pediram para separar o país se mudarem para a Argentina, pois teria que me mudar para o norte. Eu não sou daqui.

Em casa mesmo estava cercado. Tentei não argumentar muito, mas me acharam petista demais, o que verdadeiramente não sou, mas gostei da pecha. As palavras vão se engasgando tentando explicar o inexplicável. A política não se argumenta mais, ela se vende nas mídias. Não consegui explicar direito porque prefiro o PT ao PSDB, mas o tempo dirá por mim. Lá no fundo eu sei, mas não quero convencer ninguém.

Não vou retornar minhas antigas amizades, mas com esse texto estou saindo definitivamente da resignação e principalmente reestabelecendo minha fé. Perdê-la nunca mais. Ainda tenho como lutar para que o país melhore e seja mais justo. Ainda acredito que no ser humano prevaleça o sentimento da caridade, e que a ganância perca ainda mais sentido num futuro amassado pelas agressões ao meio ambiente.

Logo mais publicarei o Manifesto da Sustentabilidade Social e entrarei de vez nessa briga. Vem comigo?

terça-feira, abril 21, 2015

Um amor, um lugar...

Não penso mais em dissolver as angustias da alma como uma torneira enferrujada que pinga e pinga sem parar. Minha alma toma agora contornos escuros de noites virulentas e mal dormidas. Não saberia decifrar os próximos passos, ao passo que penso neles exatamente à medida que eles acontecem.

Não pretendo começar todos os parágrafos da minha vida com a palavra "não", mas fico sem sugestão diante da velocidade que as palavras se acotovelam para sair da minha mente. Minha mente, mente. Minha boca também, mas minha alma clama por verdade. Busco-a para dizer a mim mesmo todos os desvios que não quis tomar, mas que me tomaram e me deixaram de fora do caminho.

Espesso é o sentimento que demora a se debruçar sobre o meu viver. Intenso é o desconforto pela falta de estímulos que ora busco no lugar errado, ora me envenenam com alegrias fugazes.
A coisa vai ficando sem rumo. As palavras cessam de jorrar como se o jato fosse curto e grosso. Agora elas apenas pingam e pingam, e pingam .   .   .

Não sou poeta de ficar a brincar com palavras. Não sou cronista a ficar divagar por temas solitários no tempo e espaço. Busco sempre algo mais profundo. Mais denso e honesto com o nosso viver. Nada na superfície, tudo no fundo, no escuro do ser.

Mas é assim que é. Uma ideia na cabeça, um skate no pé. Fugir não é uma opção. É a saída da rua sem saída, é, não entrar.

E rasgando as vestes da sociedade maculada pela ganância, as máscaras vão sendo cada vez mais enfeitadas pela mídia eletrônica, cada foto publicada, cada opinião forçada, demagoga, hipócrita, mais superficial torna a sua existência.

E como não entrar nessa rua sem saída, sem casas nem portas abertas, apenas avatares? Como dissecar todo aquele sentimento de repulsa por seus 800 amigos fiéis seguidores? Todo mundo pensa igual?

Eu preciso amar mais, preciso sentir esse amor tocar outra pessoa, transformá-la, atravessar o túnel do tempo e do espaço, do físico, do material para compor luzes e sombras. Transformar esse amor num lugar, cheiro de flores e de mar. Ser um ser de luz.

Preciso trocar meu avatar.

sábado, janeiro 03, 2015

A revelação do reveillon

Fico pensando em que momento o ano acabou para mim e quando começou o outro. Tirando as expectativas existentes nessa mítica do 31 de dezembro vislumbro diversos fins e começos. Parece mais que o ano acabou quando começou minhas férias, isso em 15 de dezembro, e que 2015 começou há quatro meses quando iniciei a prática da Ioga (lê-se iôga, apesar do feminino ióga). É isso que me faz diferente hoje.

As especulações não param por ai, encasquetei na minha cabeça que o tempo... esse tempo que contamos por meio de inúmeros digitais e ponteiros, traços diagonais em calendários de funilaria, anos que nos revelam mais velhos, e cada vez mais velhos, não existe. Simplesmente trata-se de uma das piores e irreversíveis invenções do ser humano.



O tempo corrosivo é composto da decomposição. Em que momento estou vivendo e em que momento estou morrendo? O que faço para viver é diferente do que faço para sobreviver. Viver é a plenitude da felicidade. Para mim, viver é se arriscar a morrer. Salvo as devidas proporções, não busco viver tentando morrer, mas o risco é inerente a este sentimento.

Desço a rua de skate numa velocidade quase incontrolável, arriscando uma manobra ou outra e naquele momento estou vivendo plenamente. Atravesso a arrebentação do mar revolto e respiro aliviado ao transpô-lo, e estou vivendo. Acendo um cigarro e pronto. Penso que estou vivendo, mas estou morrendo. Deixo as crises financeiras tomarem meus pensamentos e penso que estou morrendo. Assim a morte e a vida se revezam nesta mesma vida que terá sim um tempo determinado. Será?

Será que tem alguma coisa que fiz em 2014 que não farei em 2015? Quanto tempo leva para que essa premissa caia? Um ou dois dias? Já fumei, já comi, já chorei e já sorri, tudo em apenas dois dias. Já nadei e já corri, já peguei o skate e desisti, já pintei e já li, e vejo ai meu tesouro. É nesse breve momento do "eu to fazendo" que vivo. Ou seja, estou escrevendo. Algo que primo muito nesta vida, mas que faço muito menos do que gostaria. É neste momento que estou vivendo e sempre será. As pessoas que alcançam o sucesso sabem desse segredo. Não deixam nada para depois, não deixam nada passar, nada para a semana que vem, pois como diz a música, "semana que vem, pode nem chegar".

No calendário nada muda. Os dias continuam a se suceder no interminável amanhã, o que muda realmente é o que se faz agora. O agora é infinito e ínfimo ao mesmo tempo. Agora nunca foi e sempre será. O querer fazer nunca fez tão pouco sentido neste momento de "renovação das esperanças", pois ninguém que quer fazer faz alguma coisa. Quero dizer que não faz sentido ficar apenas querendo, tem que pôr a mão na massa e realmente fazer. Como agora esse texto que se desnuda da reflexão que fiz enquanto morria na ponta contrária da brasa. (Será que naquele momento eu vivia?).

Vou experimentar esse ano que começa ser apenas o que sou. Vou experimentar não querer nada e fazer algumas coisas. Vou experimentar regular essas páginas e escrever... quem sabe um livro. Vou viver mesmo quando estiver morrendo, pois morte e vida são a mesma coisa, são a mesma linha com pontas diferentes. Acima de tudo, vou compreender melhor o tempo ignorando sua existência. Apenas o sentindo na palma (e rugas) das minhas mãos.