Terça-feira, Junho 14, 2011

Amanhã vai voltar

Na lua, no céu, no frio
Nem todas as gotas de chuva podem dissipar
As ideias fugazes, as intenções mais negras
O negrume da alma

.


Nem os ventos, nem o sol
O desconforto da alma está fora de alcance?
Está em cada detalhe? Em algum lugar?
Em todos.

Quanto mais eu penso em não pensar
Mais eu penso.
Tento fugir, não ligar, mas à sombra de um sorriso
Ela está.

Tento apenas mentalizar
Trago um mantra entre um trago e outro
Faço a má ideia viajar
Ela vai, mas vai voltar

Quando não mais sinto forças
É hora de rezar.
Alguém tem mais força que a alma, e sabe a limpar
Tira tudo da frente.

Agora estou mais calmo
Ela não vai voltar, vai me deixar quieto
Me esfrego os braços contra o frio da lua
Deixo o medo me dominar, hoje eu estou salvo, mas amanhã vai voltar

Segunda-feira, Maio 09, 2011

Mãe, como eu amo você!



Cheguei para a feijoada com um singelo pacotinho de presente que minha filha deu à avó, mas como minha mãe não deixa nada barato, ao me beijar ficou cassando algo no meu bolso. “Quero saber onde está a cartinha que me escreveu” disse já meio desanimada. Pensei “que coisa infantil, né?” me senti criança, como se a data comemorativa não fosse suficiente para a nostalgia.

Mais tarde, decidi que ia lhe escrever um texto, a tal cartinha, mas queria fazer algo mais maduro, que pudesse refletir os anos na faculdade, as filhas quase crescidas, enfim, todos os meus 35 anos de idade. Falar-lhe algo profundo, para que ficasse marcado para sempre na memória.

No segundo parágrafo (este que acabou de ler) me dei conta de que nada é tão tocante quanto dizer para a minha mãe simplesmente, eu te amo! Senti vontade de transformá-la em minha “rosa verde” da qual somente ela se lembra. E tudo isso é tão infantil, mas de alguma forma é tão forte que chega a faltar ar pra dizer, pra escrever, e é maravilhoso redescobrir esse amor infantil numa simples cartinha de dia das mães.

Eu nunca fui de muitos acertos. Sou um cara modesto, humilde, trabalhador. Estudei o que quis, não ganhei muita grana ainda (?) e sinceramente, não sou muito ambicioso, mas nem por isso sou frustrado ou infeliz. Pelo contrário, minha mãe guerreira me deu a herança de saber sorrir no meio das tempestades. Me ensinou que bem longe dos bens, que fazem tanto sucesso hoje, se esconde a Pedra Filosofal, o segredo da vida e do sucesso. Ela me deu essa pedra sem pedir nada em troca, e eu a guardo no peito, dentro do coração, onde ninguém pode roubar.


Mãe,

Desculpe o atraso na cartinha, agora vou fazer todo ano. Não vou esconder aqui minhas lágrimas ao lembrar desse amor só porque tenho 35 anos. Vou continuar chorando toda vez que lembrar tudo o que fez por mim. Por todas as noites que passou acordada, mesmo quando já me nascia barba. Por toda vez que esbravejou contra meus devaneios e loucuras, por todo carinho que faz hoje de você a melhor do mundo.

Eu, a Déia, a Alícia e a Rafa te amamos muito.

Feliz dia das mães atrasado.

Bjs do teu filho alquimista.

Casse

Terça-feira, Abril 19, 2011

José Basileu, se benzeu e morreu

José Basileu era um cara comum, não tanto, é verdade, mas não passava por esquisito. Trabalhava, comia, bebia e rezava. Tinha mulher, três filhos meninos, todos corinthianos, e morava na periferia da periferia. Quase mato, quase asfalto.

De tão longe comprou uma moto para ir trabalhar. Fazia metade do tempo, mas morria de medo. Corredor, só se for largo. Ultrapassar então, só os carrinhos de sorvete na calçada. Mas quando bebia, virava piloto de corrida. Curtia as luzinhas vermelhas brilhando e sendo deixadas para trás. No dia seguinte, se arrependia. Deitava a cabeça penosa no travesseiro fedido pedindo para não mais repetir o abuso. E demorava a aprontar, funcionava.

Sua mulher um dia falou “Zé, cuidado, Zé, você tem três filhos e não vai me deixar sozinha né?” Assim, Zé Basileu, deixou de beber antes de pilotar e voltava tranqüilo para casa. Passava os dias a divagar se devia ou não ficar, filosofava tanto que se perdia sem perceber num pensamento qualquer. Zé oscilava, mas não era bipolar. Sabia bem o que queria, mas não sabia como chegar.

Às quartas-feiras, fazia uma fezinha na mega-sena. Jogava sempre os mesmos números, até que um dia trocou e nada aconteceu. Voltou a jogar nos velhos e seus sonhos foram ficando a cada dia menores. Ele foi encolhendo junto, achando que tudo de ruim acontecia com ele e nada poderia fazer mudar seu destino de pobre, sem sucesso, sem grana nem pro cigarro que ele insistia em fumar.

Na quinta-feira saiu mais cedo do trabalho e planejou uma noite diferente. Queria olhar para a esposa e lhe dizer o quanto a amava, “será que dá para pegar ingressos para o jogo do fim de semana?” O mais novo ainda não tinha ido. Queria comprar esfihas e Coca-Cola, e depois que as crianças dormissem, fazer um amor cheiroso com a “nega”. Mas o destino lhe reservara outros planos.

Ainda com sorriso no rosto José Basileu, ao passar pela igreja perto de seu serviço, se benzeu e morreu. Caiu num buraco que lhe atirou ao chão. Ficou ali estatelado sentindo o sangue encharcar o capacete. Uma luz forte lhe cegou as vistas e tudo ficou escuro. Um homem se aproximou e buscou seu celular no bolso, estava tocando. Era sua mulher, ela ouviu e chorou.

Junto com o celular o homem encontrou um bilhete. Os números foram sorteados, mas ele devolveu à viúva. Ela mandou ampliar uma enorme fotografia de Zé Basileu e colocou na sala. Fez juras de amor e castidade, só conheceria um homem em sua vida, aquele por quem viveu e que lhe deixou uma enorme herança. Ela pensou, pensou e não soube decidir o que ele gostaria que ela fizesse, por isso a fotografia.

José Basileu queria ser escritor, deixou para trás inúmeros manuscritos que nunca a viúva achou. Falava sobre a pobreza e a opressão das grandes empresas, como a que trabalhava. Não podia ir ao banheiro quando queria, nem comer fora da hora de almoço, nem café. E nem entregar o serviço incompleto, não importava a hora, tinha de terminar. Mas suas ideias se foram na frente da igreja e ninguém nunca soube o que ele pensava da vida.

Saco d'agua

Levava um saco de água
Mas no saco não se leva água
Desajeitado a água foge da saca
O peso balanga e escorre

Mas quem disse que era uma saca
O saco que não está furado não vaza
Mas é um saco, é um desconforto
Um líquido tão precioso

Os passos tortos no chão esburacado
As pedras teimam fincar no chinelo
O sol castiga o cucuruto
A casa anda pra trás

No saco a água não fica
Aumenta com um pouco de lágrima
E diminui ao passo dos passos
O sorriso tem poucos dentes

A sombra do saco some
Uma criança se anima enquanto come
A saca murcha se encolhe vazia
Tão triste ser traída

Domingo, Janeiro 16, 2011

Se eu pudesse e meu dinheiro desse...

Fiquei pensando, se eu pudesse e meu dinheiro desse, o que faria?... Vou começar a responder essa pergunta sendo bastante egoísta, mas teria 4 esposas. Sim, elas reclamam, mas fazem tudo por nós, imagine quatro. Dois filhos com cada uma, todos mais ou menos na mesma idade. Uma casa cheia, bastante bagunça e confusão. Bastante amor e respeito também.

Segunda coisa, talvez menos excêntrica, mas bem louca. Mandaria recapear todas as ruas por onde passo com minha moto, faria um corredor bem largo no meio dos carros, sairia de casa pra trabalhar feliz da vida. Depois disso faria um túnel tipo escorregador que me levaria direto à praia.

Todo mundo já sonhou com um escorregador que sai da janela direto para piscina, o meu levaria à praia, com várias bifurcações pra escolher o melhor pico pra surfar. Alguns deles com fundo artificial, produzindo tubos largos como os corredores de moto que estaria em sampa.

No dia das crianças construiria um castelo de chocolate e caramelo, tudo comestível. A mesa, as cadeiras, objetos de decoração e traria pessoas de baixa renda que assistiriam a uma peça de teatro com mesmo tema e depois iriam comer o castelo da história, já pensou?

Levaria essa peça ao hospital do câncer também, eu seria o vilão da peça... adoro ver a cara das crianças assustadas, não por ser engraçado, mas por fazer parte da fantasia mais verdadeira deles. Saindo um pouco do assunto, eu já fui papai Noel, o bom velhinho que causa espanto e medo algumas vezes, causa fascínio e alegria também.

Pra terminar eu faria um tipo de estilingue do tempo. Um gigante com o "Y" bem alto. No meio do caminho, tamanha é a força do impulso que o cabra desmaia. Ao acordar estará caindo no lugar que cairia mesmo, mas no passado ou no futuro, depende para onde se aponta o estilingue. Para voltar é só dizer: ascatapultemolos... e vupt, o tempo real estará onde estiver... só cuidado para não voltar em uma avenida tipo a Radial né...

Domingo, Dezembro 26, 2010

Lá vai o Natal

Lá vai o Natal,
Com suas cores e presentes,
Sorrisos solidários,
Abraços descontentes,

A melancolia das luzes,
A lembrança de um ente
A emoção das crianças,
O feriado adomingado

Todo Natal é igual,
Mesmo sendo diferente,
O ano começa quando ele termina
A gente vive o ano esperando por ele

Desfazer a árvore,
Guardar os presentes,
Continuar comendo seus restos
Descobrir as fantasias

Todo Natal é igual,
Mesmo sendo diferente,
Um vizinho perdido
Outro parente desconhecido

Quando acaba o Natal
Não faço minhas contas
Penso na verdade
E sorrio contente

Segunda-feira, Novembro 29, 2010

A ociosa produtividade

Lá fora parece tudo tão calmo, aqui dentro nada acontece. Os dias passam preguiçosamente largados na cama. Os dias. São trezentos e sessenta e cinco no ano, quando não trezentos e sessenta e seis, mas em apenas vinte quero mudar o mundo. São minhas férias, diferentes sempre sendo iguais.

Planejei muitas coisas que poucas fiz e os dias, ah os dias são cruéis. Eles estão fugindo.

Está tudo quase pronto, mas esse quase não desenrola. Às vezes faço cinco dias em um, mas na maioria passam dez que não vale meio. Amanhã vou fazer diferente. Amanhã vou acordar cedo, fazer exercícios, mandar e-mails, entrar no orkut, facebook e twitter, e no msn também. Vou lavar a moto, instalar um alarme, parar só para almoçar e olhe lá. Amanhã, sempre é bom, espero que um dia ele chegue.

Ontem, por exemplo, preferi não sair. Fiquei aqui planejando o hoje, mas tudo foi por água abaixo no primeiro telefonema que recebi. Então, meus planos foram automaticamente adiados por um dia. Nessa, perdi duas semanas. Mas amanhã, amanhã eu farei.

Raul já dizia, “uma vida só se vive e só se usa um sobretudo”. Eu vivi cinco vidas. Essa é minha última chance e depois vem o paraíso, ou o nada absoluto, ainda não decidi. Não posso, de jeito nenhum, morrer amanhã. Tenho muitas coisas pra fazer.

Escrever um livro, editar minha revista, ser um empresário de sucesso, construir na praia, comprar outra moto mais potente, cortar o cabelo, escovar os dentes, levar as meninas na escola, buscar o carro, ligar para um amigo, fazer um site, lavar meu tênis, buscar as camisas do time e entrar para a high society. Tirando a última, o resto é verdade.

Quantos dias ainda me restam? Quantos eu apaguei com o cigarro, as bebidas e another thinks? Os filmes que eu não vi. O livro que leio há dois anos e não terminei. O dinheiro que eu não ganhei, mesmo assim gastei. Quantos dias ainda me restam?

O relógio tickteia na tela e o dia vai minguando, como as férias ociosas que tirei. Hoje vai acabar daqui a pouco, mas amanhã será o melhor dia da minha vida e isso me deixa supertranquilo, sem culpa, sem frustrações ou remorsos. Amanhã.

Quando tudo acabar, vou procurar lembrar todos esses dias como uma folha no dorso de uma formiga. Às vezes é só galho, noutra tem até uma flor. E o dia vai mudar de amanhã para ontem, de eu vou fazer, para eu fiz.

Quinta-feira, Novembro 04, 2010

Sem título

Queria lembrar dos meus dentes de leite. É um barato arrancar os dentes da minha filha. Lembro do meu pai e de quando eu repetia os escândalos que minha filha faz. Mas faz tanto tempo isso, nem sei de verdade porque comecei esse texto falando disso, mas enfim, gosto de deixar as letras rolarem, aparecer e desaparecer como um passe de mágica.

Quando eu era pequeno eu quase psicografava ao escrever, mas já tentou fazer isso no computador.. é foda porque não dá pra apoiar a cabeça numa das mãos... Escrevo quase pensando no final e isso é um assassínio. Há tantas coisas a divagar.

Por exemplo? Fazer uma pequena reflexão aqui. Eu jovem jornalista e velho filósofo sempre pensei na vida como um algo a fazer, mas aprendi que esse algo quase não existe. Lenda pessoal, conspiração do universo, destino, sei lá, é muita coisa acontecendo junto, tipo contas pra pagar, saca? Daí ser artista nesse turbilhão de boletos é praticamente impossível, tem que ser muito fera. Eu pensei que cada um de nós fosse uma estrela. Vi tantos quebrados por ai, sem brilho algum e isso ora me faz voltar a pensar nas contas, ora me faz querer fazer alguma coisa.

Nessas eleições por exemplo me senti orgulhoso de não eleger ninguém. E, pô, pela primeira vez eu votei nos candidatos que acreditava acrescentar alguma coisa, até votei na Dilma no segundo turno, mas os outros ficaram só no quase lá. Me senti orgulhoso mesmo, porque percebi que o povo gosta de votar naquele que vai ganhar, mas depois fica com vergonha de admitir que votou no Tiririca. Ele mesmo parece sinal de uma pluraridade que o congresso precisa, mas será que ele terá a chanche?

Eu queria mesmo é saber escrever. Já pensou que orgulho da mamãe, noite de autógrafos, matérias assinadas, coberturas internacionais... vixi Maria, sairia do escritório numa boa. Só fico lá por causa das malditas contas que só faço crescer, ao mesmo tempo que crescem minhas mulekas de casa.


Pra terminar, bom pra terminar, vou falar uma coisa pra você que pode te surpreender.. vou cagar. Vou cagar pra tudo isso que fica me empatando, me tirando o sono, eu quero viver! Vou pegar minha moto, minha prancha, vou deitar nas ruas e estradas e descer as mais belas ondas do litoral brasileiro. Vou continuar escrevendo sim, não adianta se felicitar, mas vou escrever cagando (preciso de um laptop). Pode ser que fique uma merda, pode ser, mas também pode ser que fique legal. É tudo projeto de ter um projeto, mas a vida ainda suspira na veia, vê comigo que cê passa de ano.